Amanheci morta – março 2010
por : bárbaragigonzac
Amanheci morta. Ao contrário do que pensam todas as pessoas que se ocupam da morte em vida, existe a consciência imediata de que se está morto. Sempre desconsiderei todas as teorias acerca da morte e todas aquelas especulações idiotas de túneis profundos, luzes berrantes e criancinhas pulando cordas. Também sempre detestei quem temia a morte, a ponto de ter hábitos alimentares saudáveis. Sabia que a minha morte chegaria. Sempre vivi sabendo que ela viria, um dia, sem avisar e todo o resto seria descoberto. Como num passe de mágica, como uma rosa vermelha numa cartola, como um relógio dourado no bolso de um coelho.
Amanheci morta. Em dias normais, depois de uma festa, tenho todas as palpitações que os grandes momentos afetivos trazem: a cabeça a mil, a boca seca, o coração cavalgando sem rumo, e a primeira coisa que faço, antes de telefonar aos melhores amigos para trocar impressões sobre o que o que não vi, chamo minha secretaria para servir meu café amargo e forte. Sempre amei o desespero dessas manhãs.
É engraçado porque quando amanheço, quando amanhecia, devo agora dizer, depois do esplendor de uma excelente festa, nunca sabia ao certo onde estava. Essas eram as grandes surpresas que a vida me trazia. E talvez a morte tenha me trazido mais uma: onde estará meu corpo. Eventualmente amanhecia na cama, por vezes num dos sofás das salas. Já espantei-me com meu corpo desmaiado no tapete da biblioteca, abraçada a um dos livros de Papai, ou na namoradeira do jardim. O despertar mais inusitado, até hoje, dia do amanhecer de minha morte, foi na banheira- vazia, que sempre achei detestável afogamentos acidentais, mesmo os dos melhores hoteis do mundo
Hoje, quando dei por mim, sem boca seca e sem palpitações, estava no jardim de inverno, debruçada sobre a mesinha de ferro que fora da minha mãe e que eu costumava amaldiçoar por nem lembro que motivos mais. Penso, uma vez mais, numa manchete. A manchete definitiva: Scarlett Aurélia é encontrada morta no jardim de inverno em noite de verão.
Por mais que seja manhã, os jornais dirão que morri a noite, porque não vão ainda saber a hora da minha morte, que nem eu sei, e o detalhe da hora em que encontrarão o meu corpo será esquecido. Para eles, terei morrido numa noite de verão. Para mim, sempre terá sido uma infernal manhã a furtar-me de mim, ou do meu corpo, talvez. Talvez minha secretaria, aquela estúpida da Carmecina, aproveitará para finalmente ter seus minutos de glória, porque ninguém pode ser tão destituído de vaidades e vontades como ela sempre foi, e dirá: “Procurei a Dona Scarlett (sempre teve o péssimo hábito de chamar-me de Dona, a facilitar a minha vida, sem jamais externar qualquer desconforto, sem dar sinais de vida) para levar o seu café, como sempre fazia na manhã seguinte às suas festas, e ela estava imóvel, debruçada sobre a mesa, e então a chamei “Dona Scarlett, Dona Scarlett, perdão acordá-la Dona Scarlett” e, então a cutucei, desesperada, pensando que estivesse desmaiada, coisa que acontecia muito, ela estava gelada, tinha falecido, coitada, tão moça, no dia do aniversário”.
Como ela me irrita. Não vai demorar para ela aparecer e gritar e me incomodar e chamar a polícia e removerem meu corpo, daí vão chamar os fotógrafos e a maldita televisão.
A sociedade ficará chocada: a grande Scarlett Aurélia morreu, no dia do seu aniversário de 50 anos. Farão várias reportagens, abrirão minhas caixas de fotos e meus diários. Lerão meu testamento: verão que distribuí tudo que tenho aos meus amigos. Farão leilão das minhas roupas e das minhas obras de arte. Se soubéssemos o dia da nossa morte, passaríamos a véspera fazendo fogueiras e amor.
Anunciarão que eu não casei e nem tive filhos, oportunidade em que, para mostrar que minha vida não era tão destituída de sentido, ou no afã de me ridicularizar, listarão alguns dos meus famosos amantes, que irão ao meu funeral com suas esposas desoladas. Usarão, minhas queridas amigas, chapéu, porque sabem todas que sempre amei chapéus. E porque não perderão a oportunidade . Eu, eu estarei vestida de madeira e flores, elas, espero que girassóis.
No meu túmulo, que ficará no meu jardim de inverno (e essa é a última dose de cinismo dessa vida miserável, lá morri e morrerei a cada dia um pouco mais), estará o nome do meu pai e o nome da minha mãe, com aquelas referências que execro: in memoriam. E eles estariam na memória de quem? Fui filha única! Eu sei que ficarei na memória de muita gente, porque não se farão mais festas como as minhas, a Grande Gatsby. Engraçado, Papai sempre adorou o Gatbsy, achava-o excêntrico e romântico. Tudo que ele mesmo não era. Achará insólito quando eu lhe contar que apesar do apelido eventual, não morri na piscina com um tiro, e sim no jardim do inverno com o machado de mamãe. Mamãe era uma tola infeliz e Papai, um literato. Meu nome adveio de uma das poucas negociações bem sucedidas de ambos: ele escolheu Aurélia, por causa de Aurélia Camargo, que era tão dona de si que se pôs a comprar marido, amigos e comparsas, na Rio de Janeiro do século passado. Mamãe escolheu Scarlett por causa do filme, ela era avessa a introspeções e odiava livros, gostava apenas de ter uma bela casa e um jardim florido. Como toda mulher que espera ser o que nunca será, amava os discursos e destemperos de Scarlett. Mamãe nunca passou fome, nem sede, talvez nem calor, Papai sempre lhe deu tudo. Ele apenas precisava de paz para ater-se à literatura e ela apenas precisava de uma casa que fosse sua. E assim, por um motivo que me escapa, tiveram a mim, e por bons anos, e tiveram um casamento do qual eu nunca quis repetir qualquer de suas cenas opacas. Por isso, meu nome era Scarlett Aurélia e, como dirão no primeiro parágrafo (ou no último) de todas as revistas, até das mais sérias, nunca casei e nunca tive filhos.
O que me intriga é ter morrido no jardim de inverno: Não me lembro de nenhum súbito ataque cardíaco ou de uma bebedeira tão intensa que possa ter me levado a vida e levado-me à morte. Sempre tive saúde e disposição impecáveis: meus amigos morriam de inveja, e eu ria disso, com gosto. Sempre gostei dos movimentos que a inveja trazia: tremores nas mãos, olhos doentios, pequenos ataques e, o melhor, discursos de depreciação e vã glória, num movimento aleatório e ora de si mesmo, ora de mim. Sempre ri disso, das pessoas que não sabem viver a própria vida e comer dos próprios frutos. Mesmo que podres, amargos ou sem açúcar.
A verdade, e é estranhamente difícil de confessá-la, é que fui morta. Sinto ainda o machado de jardinagem de minha mãe, enferrujado e de cabo vermelho, entalado na minha nuca convidativa, minhas madeixas castanho claras em coque, minhas mãos sentem os mil pedaços de cristal quebrados da minha última taça de vinho, da minha extravagante última ceia e meu corpo tem agora muitos percursos de sangue a contrastar com o que era uma pele alva e rica.
Eu, que nunca suportei cirurgias, ou qualquer ato invasivo, terei de me submeter a uma autópsia. De certo, cortarão meu vestido preferido, com tesouras enormes, e verão a minha nudez, em meio a outros corpos azuis e contorcidos. Engrandeço-me, uma última vez, por ainda ser bonita, bonita demais para meus recém completados cinquenta anos. E suspeito que talvez teria tido mais uns bons anos de glória, para espanto de meio mundo, se não tivesse sido assassinada. Porque um machado não atravessa acidentalmente uma nuca. Fui assassinada, e haverá uma investigação policial e meu pai teria rido disso, odiava livros policiais, achava-os ridículos, sempre com três ou seis suspeitos insuspeitos e um policial mal remunerado portando arma virgem e uma inteligência irretocável. Interrogarão, os malandros cariocas, todos os meus convidados: e não eram poucos, mais de seiscentos. Meus amigos e meus velhos amantes, todos vieram à festa.
Sempre tive excelentes relacionamentos pessoais, me tornei, por vontade própria, por necessidade, ou por vocação, o oposto dos meus falecidos pais, me tornei um ser extremamente social. Sabia dar o que os porcos gostavam: milho em formato de perola. Para mim, nunca foi difícil agradar as pessoas. Era o que eu tinha para dar. À sociedade, só dei isso. Quisera eu dizer que dei ciência, caridade, benfeitorias. Não, só dei festas. Das melhores festas da sociedade carioca: daquelas que as pessoas me faziam juras de amor na despedida, trôpegos. Serei lembrada pelas minhas festas. E eu sinceramente esperava que quando a morte viesse me tirar dessa vida miserável, que não me deu amor, a não ser o amor autista do meu pai e o amor silente da minha mãe, houvesse uma derradeira festa. Não, lamento, não haverá, meus convidados estarão ocupados a mirar um delegado sujo, numa delegacia imunda da periferia carioca. Deveria haver uma delegacia especializada em grandes crimes cujas vítimas fossem grandes personalidades, mas essas preocupações só vem com a morte, ninguém se preocupa em vida com o cenário perfeito para o desenrolar de um grande assassinato. Quisera eu que tivesse sido magistral meu assassinato e que seja magistral minha investigação. Na morte, não há modéstia. Nem na minha vida jamais houve. Mas como saberia que seria morta? Teria preferido um belo desastre de avião ou uma colisão trágica na Rio-Niterói.
Eu queria poder contar quem me matou, sussurrar no ouvido de alguém, escrever numa folha de papel, mas nunca acreditei que um morto pudesse interferir na vida de um vivo. Se fosse assim, meu saudoso pai teria me escrito cartas ao invés de me deixar só.
Se fosse permitido escolher meu assassino, primeiro que fosse homem e bonito e que tivesse um excelente argumento.
Eu queria ter sido morta por algum amante inconformado. Mas devo confessar que livrei-me de todos da única maneira que sempre soube livrar-me, não do convívio mas da intimidade, de todos os meus amores: dando os de presente para quem precisasse de amor ou de casamento ou de dinheiro. Eu mesma, nunca precisei de amor, casamento ou dinheiro. Ou talvez tenha precisado de amor mas nunca acreditei que alguém pudesse amar-me. E assim, passei a vida repassando meus amantes. E eles nunca se ofenderam por isso. Deixei-os confortavelmente felizes em novas companhias. E fiz a felicidade de muitas amigas assim, e de muitos amigos também, os homens as vezes passam a preferir amantes homens depois de uma certa idade, talvez porque homens são violentos. Nunca tive preconceito com nada, penso, por isso talvez tenha esta lista tão extensa de convidados ontem. E quase sempre, a se esbaldar nos meus salões.
Não seria nada agradável, ao contrário, ter sido assassinada por algum amigo. Eu não devia nada a ninguém. Me deviam, mas nunca cobrei, e preferia esquecer verdadeiramente qualquer espécie de dívida se fosse a companhia agradável ou necessária. Era uma regra que aprendi ainda menina, com meus pais. E desde então, tive amigos. E por isso, tive mais amigos: uma porção de bajuladores. E porque não? Penso, porém, que eventual cobiça que alguns sentiam do que eu era, tinha, representava ou sabia da vida, não poderia ser um motivo para uma machadada de madrugada no meu jardim de inverno. Se houvesse dores de parto, que a vontade de posse da vida alheia costuma trazer, haveria certamente outros meios de expurgá-la, tal qual a difamação. Ah..a difamação! Mas não, acredito piamente que nenhum dos meus amigos tivesse tanto ódio assim, esse ódio que só se aperfeiçoa com o sangue.
Se eu tivesse um mordomo, a culpa certamente seria dele. Por algum motivo que se eu fosse dada à literatura e a policiais, eu saberia. Mas Papai sempre achou ridículo os policiais, então os menosprezei, e os outros livros, se bonitos, iam para a minha biblioteca. A vida mostrou-se curta demais para as imobilidades que a leitura traz.
Por fim, dentre meus possíveis assassinos, devo considerar que tenho uma dezena de empregados, a quem sempre tratei com o respeito possível de se oferecer a quem limpa nosso chão e lava nossas roupas. Não sou comunista. Odeio comunistas. Nunca trabalhei. E minha renda distribuí a meu gosto. E não tenho remorsos. Trato bem meus empregados, mas não sou louca de pensar que me amam. Meus amigos sim, é o que eles dizem ao deixarem minha casa ou quando dou-lhe um agrado. O resto do tempo, se me amam, não me preocupo em comprovar.
Penso que o jardineiro poderia ter me matado, com o machado da minha mãe, mas não. Não era habilidoso com o machado. Era dado à tesouras e fazia maravilhosos arranjos. Não penso que teria me deixado sangrar sobre uma mesa de ferro. Tinha extremo bom gosto. Não fui morta por um homem.
Já é tarde e enfim abriram a porta do meu pequeno jardim de inverno. Sinto finalmente cheiro de homens e sinto também a pólvora vindo da casa. Ninguém parece surpreso. Nem eu.
Sempre amei cheiro de homem. Sempre odiei cheiro de pólvora









Leave your response!