aula aberta de história da arte
((( história )))
Mondrian e Kandisnky são dois caras que, tendo vivido na primeira metade do século 20, ajudaram a fazer a coisa ser como foi: moderna.
A despeito da aparente diferença entre as obras deles, tinham dois pontos fortemente em comum: a pintura abstrata e uma convicção de que o jogo da arte é transcendente. No caso do Holandês, um certo messianismo. Ambos viam a arte como um diálogo espiritual possível com o mundo e isso sem deixarem de ser artistas “cientistas” como quase todos na primeira metade do século (e de novo hoje e talvez sempre).
E veja que isso foi num momento em que os resultados tecnológicos soterravam a autoridade religiosa que se metesse a explicar qualquer fenômeno. Por isso mesmo, religiosidades alternativas tiveram espaço de surgir como por exemplo a Escola Teosófica – uma mistura de um pouco de tudo bem parecido com nossas práticas religiosas atuais – e acabaram por influenciar os dois.
A fé de Mondrian estava na linha reta – que só deveria se encontrar com outra em um ângulo também reto - e nas cores primárias mais o preto e o branco. “Admirava tanto o quadrado quanto o cristão admira a cruz”. Disse que chegar ao equilíbrio utilizando apenas esses elementos equivaleria a alcançar o momentum perfeito, igual ao que segura o próprio cosmos. Sua pesquisa particular pela forma de duração eterna (como o universo) deu tão certo que até hoje o design e a publicidade conseguem aplicá-lo em seus produtos.
Kandinsky aludia ao aspecto espiritual da cor e é dele a lindíssima frase: “a cor é a chave, o olho o martelo, a alma o piano de inúmeras teclas”.
Também trabalhava com a idéia de composição equilibrada e assimétrica mas, diferente de Mondrian, ele dava vez às formas vindas de uma certa ” devoção à beleza interior”. Olha que bonito.
O russo também partia das figuras geométricas puras (triângulo, circunferência e quadrado) estabelecendo uma relação entre elas, iguais à síntese “total” que Mondrian atribuia à linha reta.
Por essas semelhanças e diferenças um era “abstrato geométrico” (construção racional) e o outro era abstrato expressivo (construção emocional), contudo, ambos abstratos, o que era uma novidade importantissima dentro da arte ocidental pois essa sempre se desenvolveu em torno do “assunto” que representava. Assim, a pintura deixa de ser “descritiva” passando a acontecer como uma especulação de seus próprios elementos (cor, linha, traço e ponto).
Esse desapego da forma pelo ocidental é uma coisa belissima de se estudar e a pintura abstrata é apenas um dos capítulos mais recentes. A evolução disso passa pelo abandono do tema “nobre” que permitiu o estudo científico da luz e da cor pelos impressionistas até o desapego do próprio objeto, o que será assunto para uma outra oportunidade.
Mas vale citar uma declaração de Matisse que, uma vez questionado sobre a inadequação de se usar verde no rosto da mulher que pintava, respondeu simplesmente: “isso não é uma mulher, é uma tela com tinta”. Esse é modernismo meus amigos.
O que Mondrian pretendia com suas composições geometricamente religiosas e Kandisnky com suas explosões emocionais coloridas era mais ou menos atingir, pela arte, aquela suspensão que pretendemos chegar com a meditação. O momento que contém o tudo. A integração do homem numa espécie de samadhi cósmico.
Mas isso não pra eles mas para o status dessa atividade humana de uma maneira geral. Porque uma outra coisa que caracteriza o modernismo, era a consciência da necessidade de distribuir o resultado da tecnologia entre todos. Muitos inclusive sendo empolgados com comunismo que dava seus primeiros passos “práticos” na revolução russa (que ainda não tinha tido tempo de decepcionar pelos meios que utilizou).
Uma outra coisa bacana de se saber é que ambos associavam seu trabalho à composição musical, afinal, a música é a “mais abstrata de todas as artes”. Mondrian com o Jazz, cuja construção matemática considerava semelhante ao que ele mesmo fazia e Kandinsky com Schoenberg, um dos inventores do Dodecafonismo que no Brasil, por exemplo, virou Arrigo Barnabé. Me gusta Debussy.
((( ver )))
Se a história por um lado contextualiza, por outro já interpreta as coisas e estudar obras de arte não pode ser apenas isso porque elas mesmas têm o que dizer sobre si e através de si.
Para estudar a História das Artes Visuais é necessário permitir-se uma absorção desse assunto que a própria obra tem a dizer. E da mesma forma que para compreender uma composição musical você precisa ouvi-la com alguma qualidade de som, para estudar um quadro você tem de ter condições de perceber sua anatomia, vibração e peso espiritual (já que é isso que os caras estavam defendendo, né?)
Assim é preciso olhá-lo e daí decorre um problema que com a música não tem: a ausência da obra “ao vivo e a cores”.
Para superar isso, o que eu aconselho é você escolher um trabalho de cada desses artistas dos quais estamos falando e deixar descansar ali seus olhos por no mínimo 15 minutos.
Porque, veja, ler sobre o equilíbrio das cores primárias é uma coisa, sentir isso já tem uma distância. Da mesma forma que ler uma biografia não te informa com veracidade sobre a personalidade da pessoa. Quando se vê, por exemplo, algumas biografias rápidas de Egon Shielle pensa-se que ele era um pedófilo e ponto. No entanto, em seus textos escritos na prisão, que acabam de ser publicados, ele reclama de um tipo de incompreensão que para nossos valores atuais é fácil de entender.
Enfim, pra sentir o quadro tem que ter tempo porque nessa área não é a objetividade do olhar que conta e sim a qualidade da contemplação que você conseguir alcançar. O que estou propondo é uma meditação visual.
Como não temos o quadro, esse exercício pode ser feito em um monitor (quanto maior e mais fidelidade de cor melhor) ou com uma reprodução impressa (para a qual valem as mesmas observações). Ambos irão sensibilizar seu olho de uma maneira diferente em relação à própria tela, mas um pouco de paciência.
Se puder ver Mondrian ouvindo o jazz dos anos 20 e kandisnky ouvindo Schoenberg (ou Debussy) agrega.
((( cor )))
Se você estiver estudando essas imagens num monitor estará vendo o padrão de cores RGB (que corresponde ao conceito de cor luz: Red, Green e Blue), se for numa cópia impressa, será o padrão CMYK (cor pigmento: Cian, Magenta, Yellow e blaK).
A diferença de um pra outro é, como os nomes deixam claro, a matéria em si da qual se compõe as cores e as relações entre elas que formam todo o espectro colorístico.
Assim, quando você está na web customizando alguma coisa, como a tela de fundo de um fotolog por exemplo, o branco sera FFFFFF (isso é a escrita RGB)
Pra se entender essa conversa é bom ir numa dessas lojas de tintas que tem aquelas tabelas infinitas de tons e pedir para o técnico explicar a lógica de mistura dos pigmentos com as bases. Tente entender também o próprio funcionamento da máquina indo do software que traduz o RGB para um código CMYK até a saculejada que mistura os pigmentos.
Sobre a harmonia das cores, já aconselho a buscar histórias tão bonitas quanto a que me contou minha amiga Naoko sobre os infinitos significados da sobreposição de cores dos delicados kimonos de seda japoneses. Além, é claro, dos próprios fundamentos da cromoterapia e da psicologia. Na verdade as cores estão todas por aí juntas e o prisma (efeito arco-iris) as decodifica assim como o CODEC decodifica um vídeo.
Já aqueles manuais que condenam as cores a um único fim, desconfie, porque elas sempre operam em forma de relações e não através de funções isoladas e estáticas.
Assim, um vermelho será o mais vermelho possível se estiver ao lado de um verde (por serem complementares). Contudo tal exuberância, quando aplicada ao design por exemplo, pode causar vibrações indesejadas, por isso o ideal é você “saber sentindo” como uma cor reaje à outra e daí tomar suas “próprias” decisões de aplicação.
A professora Fayga Ostrower publicou um livro (Universos da Arte) em que trata das cores pigmentos explicando seus efeitos através da análise de quadros importantes da História da Arte. Ela também fala de outros elementos como composição, ritmo e traço usando o mesmo sistema. É um beabá ótimo.
((( exercício )))
Vou sugerir aqui um exercício, que tenho feito em sala de aula com resultados sempre empolgantes:
> primeiro escreva uma história sobre você mesmo. Isso pode ser uma lembrança de infância ou um fato marcante em qualquer tempo.
> depois assinale no texto as palavras chaves
> em seguida atribua, com com uma técnica manual, uma cor pra cada uma dessas palavras e assim passará a ter a paleta de cores dessas emoções. Essa técnica pode ser utilizada para diversos outros temas e através de inúmeras técnicas como as que eu vou rapidamente descrever abaixo.
((( técnica )))
Se a sua onda for usar tinta, o melhor que posso fazer num texto é dizer que alcançar o ponto da tinta é a mesma coisa que cozinhar : mistura (muito) e prova várias vezes. Se a tinta for óleo pode ser com óleo de linhaça, terebentina, secante de cobalto, solvente e, no desespero até gasolina. Se for acrílica, água e aí a mistura vai definir mais a densidade e opacidade. Aquarela é pra papel e a água conduz o pigmento até o local. Pra mim essa é uma das técnicas mais difíceis porque tem de ser certeiro, a aquarela não admite retoque. A tinta guache também é para papel e as que a gente encontra normalmente são mais indicadas pra aula de criança porque tem pouca elasticidade de uso, contudo tem uma marca (TGA) que é boa e baseada na escala CMYK.
O spray – ideal para paredes e superfícies de metal - guarda como maior mistério o estado do bico e a quantidade de ar na lata. Se tiver muito você tem que fazer um traço corrido e mesmo assim vai escorrer. Com pouco ar você poderá trabalhar com calma. Pra tirar o ar vire a lata de cabeça pra baixo e comece a soltar a tinta: só no início sai um pouquinho de tinta e depois vem o ar. Faça isso até a lata ficar gelada e teste.
Se você quizer usar técnicas de desenho ao invés de pintura para estudar as cores, o lápis de cor, por ser tão popular, parece fácil. Mas não é.
Se de qualquer modo quizer tentar pense em trabalhar com papéis texturizados, claros e também escuros, com sobreposição de camadas finas de lápis. Assim, por exemplo, pra fazer um verde “feliz”, a observação de por perto um vermelho que fiz lá atras vale: faça uma camada de vermelho e por cima a de verde. Caso contrário fica aquela grama com aspecto de desenho infantil. Tem ainda o pastel seco e o oleoso (os nomes dizem bem o que são)
Canetinhas são boas para produzir desenhos tipo vetor manual, aqueles “chapadinhos” de fronteiras bem definidas. Eu gosto. Compro as de retroprojetor, mas tem umas finas que também são bem legais e te obriga a desenvolver texturas de preenchimento. Canetinhas gostam mais de papel liso. Os grafiteiros trabalham com altas canetas com pontas bem largas e tinta específica chamadas marcadores. Os bons marcadores estão nas mesmas lojas que os bons sprays.
Se você quizer receber esse texto ilustrado, com os links para citações e mais imagens + feedback do exercício & sugestão de livros, filmes e músicas, que o ajudarão a estudar sozinho, deixe o seu email na área de comentários ou email-me em goiastexas@gmail.com que eu enviarei o PDF
Para os interessados em aulas presenciais as condições estão em http://goiastexas.com.br/aulas/
fabiolamorais é artista e professora do curso de Design | PUC.go
ilustração: composições de kandisnky e mondrian










Lindona !
ADOREI esse texto !!
Na verdade, estou em falta com vc, nao repondi aquele e mail, mas te guardo aqui nos pensamentos da minha pesquisa ! Estou começando a parte pratica e quero te escrever qd tiver a conclusao …. daqui uns dias ! ehhhehehheheheh …. na verdade, sao MUITASSSS coisas para COMPARTILHAR que em vez de um e mail, seria ideal escrever um LIVRO ! (exagero)
Sobre esse texto, gostaria de receber esse arquivo, rola ?????
Te deixo: flores, abraços, luzes e beijos
Nega
Boa tarde,
Gostaria de todas as informações, pois sou apaixonada pelas artes.Tenho estudo muito e fiz alguns cursos de desenho e pintura.
Atenciosamente,
Lígia Noce
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