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Carta ao arquiteto

7 February 2010 4 Comments

egonschiele_scornfulwoman

Nosso mal entendido é de caráter conceitual. O senhor fez esse bonito desenho de minha casa e de minha biblioteca partindo da suposição – muito corriqueira, infelizmente – de que num lar o importante são as pessoas em vez de os objetos. Não o critico por ter adotado esse critério, indispensável a um homem de sua profissão que não se resigne em prescindir de clientes. Mas a concepção que tenho de meu futuro lar é oposta. A saber: nesse pequeno espaço construído a que chamarei meu mundo e que meus caprichos governarão, prioridade absoluta terão meus livros, quadros e gravuras; as pessoas serão cidadãos de segunda classe. São esses mil volumes e a centena de telas e cartolinas estampadas que devem constituir a razão primordial do projeto que lhe encomendei. O senhor subordinará a comodidade, a segurança e o espaço dos humanos aos dos objetos.

É imprescindível o detalhe da lareira, que deve poder se transformar em forno crematório de livros e de gravuras que estão sobrando, segundo minha vontade. Por isso, deverá estar localizada muito perto das estantes e ao alcance de minha cadeira, pois me agrada brincar de inquisidor de calamidades literárias e artísticas, sentado, não de pé.

Explico-me. Os quatro mil volumes e as cem gravuras que possuo são números inflexíveis. Nunca terei mais, para evitar a super-abundância e a desordem, mas nunca serão os mesmos, pois irão se renovando sem parar, até minha morte. O que significa que, para cada livro que acrescento à minha biblioteca, elimino outro, e cada imagem – litografia, talha, xilografia, desenho, ponta-seca, mixografia, óleo, aquarela, etcétera – que se incorpora à minha coleção afasta das demais a menos favorecida. Não escondo que eleger a vítima é árduo e por vezes dilacerante, um dilema hamletiano que me aflige dias, semanas, e que depois meus pesadelos reconstroem. No início, eu presenteava bibliotecas e museus públicos com os livros e gravuras sacrificados. Agora, queimo-os, daí a importância da lareira. Optei por esta fórmula drástica, que salpica no desassossego de ter de escolher uma vítima a pimenta de estar cometendo um sacrilégio cultural, uma transgressão ética, no dia, melhor dizendo na noite em que, ao resolver substituir um bonito Szyslo inspirado no mar de Paracas uma reprodução da multicolorida lata de sopa Campbell’s de Andy Wahrol, compreendi que era uma estupidez infligir a outros olhos uma obra que eu afinal considerara indigna dos meus. Então, joguei-a no fogo. Vendo aquele papelão se crestar, senti um vago remorso, reconheço. Agora isso já não me acontece. Atirei dezenas de poetas românticos e indigenistas às chamas e um número igualmente grande de artistas plásticos conceituais, abstratos, informalistas, paisagistas, retratistas e sacros, para ca, sem dor, e melhor ainda, com a estimulante sensação de estar exercendo a crítica literária e de arte como deveria fazê-lo: de modo radical, irreversível e combustível. Acrescento, para concluir esse aparte, que o passatempo me diverte, mas não funciona nem um pouco como afrodisíaco, e por isso, considere-o limitado e menor, meramente espiritual, sem reverberações sobre o corpo.

Confio em que o senhor não considere o que acaba de ler – a preponderância que atribui a quadros e livros em relação a bípedes de carne e osso – um acesso de humor ou uma pose de cínico. Não é isso, e sim uma convicção arraigada, conseqüência de difíceis, mas também prazerosas experiências. Não foi fácil para mim adotar uma atitude que contradizia velhas tradições – chamemo-las de humanísticas com um sorriso nos lábios – de filosofias e religiões antropocêntricas, para as quais é inconcebível que o ser humano real, estrutura de carne e ossos perecíveis, seja considerado menos digno de interesse e de respeito do que o inventado, do que aquilo que aparece (digamos, refletido, caso se sinta mais cômodo assim) nas imagens da arte e da literatura. Poupo-lhe os detalhes dessa história e o transporto para a conclusão a que cheguei e que agora proclamo sem rubor. Não é o mundo de velhacos semoventes do qual o senhor e eu fazemos parte o que me interessa, o que me faz ter prazer e sofrer, mas sim essa miríade de seres animados pela imaginação, pelos desejos e pela habilidade artística, presentes nestes quadros, livros e gravuras que com paciência e amor de muitos anos, consegui reunir. A casa que vou construir em Barranco, a qual o senhor deverá desenhar refazendo o projeto do principio ao fim, é para eles, antes de ser para mim ou para minha flamejante nova esposa, ou para meu filhinho. A trindade formada por minha família, digo sem blasfêmia, está a serviço desses objetos e o senhor também deverá estar, quando, após ter lido estas linhas, se inclinar sobre a prancheta para retificar o que fez errado.

O que acabo de escrever é uma verdade literal, não uma enigmática metáfora. Construo esta casa para padecer e divertir-me com eles, por eles. Faça um esforço e me imite durante o limitado período em que trabalhará para mim.

Agora, desenhe.

trecho do livro “os cadernos de don rigoberto” mario vargas lhosa..
Ilustração: egon schiele

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4 Comments »

  • fabiano (author) said:

    Dunbar’s number is a theoretical cognitive limit to the number of people with whom one can maintain stable social relationships. These are relationships in which an individual knows who each person is, and how each person relates to every other person. Proponents assert that numbers larger than this generally require more restricted rules, laws, and enforced norms to maintain a stable, cohesive group. No precise value has been proposed for Dunbar’s number, but a commonly cited approximation is 150.

  • Vivianne said:

    Penso q os números de Dunbar provocam um aproximação com a detestável idéia (para a onipotência contemporânea) de que existem limites. Vargas Losa nos mostra q os limites se estendem tb à administração de objetos. Tdo isto me conecta com um outro conceito, o de saturação do elemento circulante, típico de uma sociedade em rede. Se ficar curioso, veja em Redes, obliterações no fim de século, de Eugênio Trivinho, uma visão crítica sobre tudo isto em q estamos mergulhados. É q o tema é muito extenso para um comentário. :-)

  • fabiano (author) said:

    O cérebro humano é capaz de administrar um máximo de 150 amigos nas redes de relacionamento disponíveis na internet, como os sites Facebook e Orkut, revelou uma pesquisa realizada na Universidade de Oxford, na Grã-Bretanha.

    http://www.bbc.co.uk/portuguese/ciencia/2010/01/100125_facebookamigosml.shtml

  • Fabiano (author) said:

    Saiu na BBC, matéria sobre pesquisa atual de Robin Dunbar, professor de antropologia evolucionária que
    nos anos 90, desenvolveu a teoria batizada de “Número de Dunbar”, que estabelece que o tamanho do neocortex humano – a parte do cérebro usada para o pensamento consciente e a linguagem – limita a capacidade de administrar círculos sociais a até 150 amigos, independente do grau de sociabilidade do indivíduo.
    Os estudos atuais, focados nas plataformas de redes sociais na internet confirmam o tamanho do círculo social que cada pessoa pode administrar.

    post completo aqui:
    http://escoladeredes.ning.com/profiles/blogs/numero-de-dunbar-confirmado-em

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