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Ensaio Texano

1 February 2010 3 Comments

Por Marcela Borela

Eu nuca fui ao Texas. Apenas e talvez o cinema tenha me levado até lá algumas vezes, em filmes como Paris, Texas (Wim Wenders, 1984) ou Onde os fracos não têm vez (Ethan Coen e Joel Coen, 2007) por exemplo. Nestes maravilhosos filmes, o lendário lócus chamado Texas, região do oeste insano dos Estados Unidos da América, é tratado como lugar mitológico-imaginário de uma contra-civilização. Isso muito me interessa pois levanta questões sobre uma teoria da cultura sob perspectiva pós-colonial, uma reflexão sobre identidade regional e um tipo de cinema que elege lugares como personagens. Mosaico pré-formado, vou de espasmo em espasmo.

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O Texas faz parte do que ficou delimitado como sertão dos EUA no processo de ocupação do território da América do Norte (branca e capitalisticamente falando). Assim como este Goiás (parte que interessa mesmo), foi visto pelo olhar dos explicadores da história (até a chegada da modernidade, ou seja, da atividade mais precisa do capital), como lugar da ausência de tudo, onde reside o nada, o vazio, o deserto, onde não há lei ou moral definida o suficiente para apaziguar o medo do desconhecido, onde os modos de vida se baseiam nas formas mais arcaicas de pensamento e sobrevivência e para onde se projeta e se guarda a ausência de sentido para o que fazemos e sentimos. Lugar de homens-dureza, homens-ação, homens-força, homens-lei. Homens-incompreensão no último lugar alcançado pelo padrão de experiência da civilização ocidental, onde o que é e o que não é não é uma questão de nomeação arbitrária, mas de força de expressão e vontade monstruosa da subjetividade.

Se o Texas é o sertão (e os americanos chamaram o sertão deles de oeste), ele pode estar localizado inclusive e não necessariamente no Texas, mas sim um pouco mais aqui e ali também e pode estar mais pra baixo ou mais pra cima e mais pro centro, basta crer que se trata apenas de uma questão de aplicabilidade de conceitos. E em tempos pós-tudo, sabe-se que significados não correspondem a corriqueiros significantes. Então acho que já conheço o Texas. Até porque aqui no (((goiás-texas))) ou no (((sertão dentro da gente))) o Texas é Guimarães Rosa e bang bang, é Taylor e latinidade, é amor e falta de sensibilidade. Está em relação – e pode acreditar – seu hífen [1] diz mais que as palavras que e o fazem de recheio. Mas antes de continuar esta fantástica digressão conceitual, melhor retornar aos filmes impressionantes.

Paris,Texas é um lugar e não dois como um superficial contraponto poderia indicar. Em Wenders ele é a representação do lugar pra onde fogem todos os traumas, todos os lixos, todos os medos. Longe de tudo, em Paris, Texas, não existem problemas. Por ser a própria subjetividade, é a subjetivação de tudo. É o lugar pra onde iria o personagem andarilho quando estivesse tudo bem. No filme não sabemos se é para lá que ele caminha, mas isso não importa. Sua mente se direciona para Paris,Texas, o éden inventado para desenrolar neuroses. Uma cidade chamada Paris no meio do Texas, onde o personagem compra um terreno por correspondência. Tão imaginado que existe. É pra onde iria com a família que tentou destruir por não sobreviver à realidade da dúvida. Condensado no filme a partir da complexidade existencial do homem que (((foge de sei lá o quê mas todo mundo percebe… foge de si mesmo))), o pensamento autoritário, patriarcal, tributário de uma visão de mundo tradicional, se vê ameaçado pelas dúvidas e ameaças de uma vida contemporânea sem certezas e sem verdades. Quando impossibilitado de exercer sua vontade de controle, este pensamento se auto-fragmenta, foge, vai para Paris, Texas. Não parece uma ótima saída, mesmo que tal destino material nunca seja alcançado?

Onde os fracos não tem vez é o Texas mais uma vez. O Texas, nesse filme, representa onde as coisas simplesmente funcionam sem funcionamento definido, onde o espaço da crueldade, da violência, da maldade e da incompreensão está conquistado pela ausência de sentido lógico. É a fronteira da subjetividade e da civilização, onde a tragédia é explicação da vida e a dor é condição da existência. A história revela tipos humanos. Aponta em círculos para a interpretação inconformada de um velho xerife de um condado que faz divisa com o México. O xerife texano não compreende o mundo na sua transformação para a plena crueldade, para a super-violência, esta que não é motivada pela adequação da subjetividade à moral simplesmente, mas se apresenta como a violação total do sentido de humanidade, patologia pura. Assim, por causa do xerife, a noção de desconhecido, como categoria para onde se projeta a intenção do conhecimento, se desloca do sertão para a civilização. Não é mais a nação, o mundo, a política ou vida estratificada que tenta entender o sertão (como abordou o pensamento social americano) mas é o sertão que não entende o que se apresenta a ele. Essa inversão do ponto de vista é o que mais me chama atenção no filme dos irmãos Coen (4 Oscars, etc, etc.), além, é claro, dos planos lambidos do deserto: a crosta amarela de poeira e o constante horizonte que te leva para longe estando em qualquer ponto do lugar, o (((céu bonito pra velejar ))) [2] . Signos visuais da familiaridade, do meu lugar: o Texas? não. O (((goiás-texas))).

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Pegue os dois filmes e mais outros filmes, livros, piadas, novelas e histórias que você achar que tratam de alguma dessas coisas todas, junte-os as minhas baboseiras conceituais, dê uma boa passada na cara que as coisas tinham nos idos anos 1980 e você localizará o objeto deste ensaio: o nosso querido espaço de degladiação humana, o Goiás-Texas (em letras maiúsculas agora pra afirmar a plaquinha da localidade com o devido protocolo da nomeação). Como lugar do pensamento contemporâneo experimental do sertão, recém-inventado graças a idéia universal de (((amor))), o (((goiás-texas))) me inspira a localizar dentro de seu oportuno hífen – louvado hífen que separa e junta – tudo que me motiva e atinge. Sempre foi assim em arte, inventa-se um lugar pra enfiar coisas. É como ocorre nesses filmes sob os quais viajei, projeta-se no tal lugar tudo que se deseja ou rejeita, e faz-se dele uma extensão do que pode ser entendido como o interior do artista. Assim, todas as representações sobre o Texas ou o sertão em qualquer lugar do mundo servem pra pensar nossa micro-coisa do Goiás na macro-coisa dos problemas humanos mais interessantes do momento em cultura de um modo geral, em cinema de um modo geral e em arte.

O (((goiastexas))) – agora respeitando sua forma original [3] – é meu desconhecido inventado e nele cabem todos que sobre ele pensam e que a partir dele sentem. Eu não o inventei como conceito ou lugar, assim com eu não inventei nem o Texas e nem o sertão. Eu apenas participo da teia de sentidos que ele ganha ao longo de sua existência virtual. Nele eu coloco o arcaico, o tradicional, o escuro e o claro, o agora mais urgente e o passado mais presente. Nele estão necessariamente a precariedade das formas de racionalização de modelos ocidentais clássicos aplicáveis apenas ao interesse econômico das elites ou a vontade ingênua de consumo dos menos favorecidos, bem como a ausência de reflexão sobre as coisas humanas, sobre as formas de percepção e as possibilidades de produção da beleza hoje. Alguma relação com as pedras no caminho?

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Mas o bom, o contudo e o entretanto é que no (((goiás-texas))), a (((mudernage ))) [4] ainda tem (((céu bonito para velejar))), água pura e gelada pra beber e purificar, sabedoria pra ensinar, subjetividade monstruosa para ver de dentro, do alto do planalto central da America do sul, uma civilização marcada pela tragédia. No Goiás-Texas, nunca é demais lembrar que a plaquinha da origem foi colocada a partir do genocídio dos índios chamados (((Goyazes))) antes mesmo que os portugueses e paulistas roubassem todo o ouro de superfície de nossas serras misteriosas. Nem pra assumir a maravilha do mistério e só pra destruir e controlar o desconhecido. Não agüento mais esse falso problema epistemológico que esconde a vontade de dominação da natureza e do (((outro))). Malditos?

Do que restou da poeira amarelada da história eu vejo gritando no fundo da memória: catástrofe, dor, incompreensão e beleza. Uma beleza que faz emergir de tudo que morreu no Goiás-Texas uma vontade de reconstituir criticamente, acidamente a consciência da merda que fizeram e continuam fazendo. Hum?

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No lugar chamado Goiás-Texas, as coisas humanas emergem do escuro da poeira dourada, da grana do boi, do arroz e da soja, das fábricas de carro e presunto, das usinas barulhentas, do trabalho escravo, da prostituição, da miséria, das caixas de remédio de tarja preta, das pedras que explodem as serras, do desgaste ambiental inútil que inundou nossos últimos índios isolados a menos de dez anos. Nele, as coisas humanas estão encoronhadas numa falsa atmosfera de desenvolvimento econômico, mas, sim, emergem e podem produzir uma beleza mais sironiana que Siron, mais seca e desconhecida que o Texas, mais frágil e trágica que a morte de todos os índios Goyazes que nos dão nome: dão nome ao nada?

Aqui no Goiás-Texas tem sido difícil segurar a onda mesmo tendo pra onde fugir, ao mesmo tempo em que parece fácil dar o (((360 graus))) e botar fogo nessa bobagem toda, deflagrando quem sabe no (((bang bang do cerrado))) o sem-fim vazio-cheio e transbordando do sertão.


Marcela Borela é realizadora audiovisual, produtora cultural e pesquisadora no (((goiás-texas)))

(1) É preciso explicar o hífen, não tem jeito. Como ele veio parar aqui? Não sei explicar, mas é preciso explicar. Eu vi o hífen mesmo nunca tendo existido um hífen no (((goiastexas))). E, na verdade, só percebi a (((criação))) quando me alertaram. Viva o hífen! Ou… Tira o hífen? Bom, agora não tem mais jeito. Isso é que é senso de apropriação! Peço desculpas aos que desprezam o hífen.

(2) Referência à música (((baião goiano))) que diz (((nós num têmu mar, mas o céu é bonito pra velejar em terra firme… nós num têmu mar mas o som é bonito pra velejar))), de Luiz Clímaco, Kléber D´Abreu e Ari Rosa. Umbando. Goiânia, Fósforo Cultural, 2009.

(3) Original em Fabíol(((amor)))ais: figura incrível que inventa e reinventa tudo isso. Original como idéia não fixa e imutável mas como lugar de onde alguma coisa começa porque são as épocas e as pessoas que inventam as coisas. e vale reafirmar: ela inventou sem hífen!

(4) Caipirice de modernidade. Conceito roubado da música de Elomar Figueira de Melo (((o violeiro))) para o filme com este nome (((mudernage))) – documentário de longa-metragem de minha autoria que aborda o contexto das artes plásticas em Goiás com foco em seu momento mais modernista, colocado em situação de revisão histórica. Lançamentos oficiais em 19 de fevereiro de 2010 na TV Pública Brasileira (TV Cultura 22:40h), em 22 de fevereiro no Instituto Rizzo em Goiânia com festinha (20:30h) e em 24 de fevereiro na TV Pública Local (TBC 23:40h).

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3 Comments »

  • Renato Prado said:

    “Sertão. O senhor sabe: sertão é onde manda quem é forte, com as astúcia. Deus mesmo, quando vier, que venha armado!”

  • px silveira said:

    é isso sim, linda marcela, com o des-agravante que “o haiti é aqui” e não se pode esquecer. sem querer tocar no fato de que a goiânia-country felizmente não emplacou (ainda!), me dói saber porque orson wells deu as costas para o “seu” texas e preferiu vir filmar a desolação humana nas dunas do ceará. é que, desde muito antes, humberto mauro já declarara que “cinema é cachoeira”, numa alusão de que só conseguiu viver da profissão porque era contratado para filmá-las. algo assim como a “bienal do incomum”, realizada em goiânia capital da arte e que surpreendeu até o júri vindo para cá da bienal de veneza, para se afogar na mente dos artistas burocratas e terminar em sua primeira edição. e agora lanço em março a “bienal internacional do pano de prato”, que vai servir para os artistas das artes visuais e do áudiovisual se atualizarem com o “texas” ou com o “country”, que escolham, nós, os inegáveis centroianos e cerratenses.
    forte abraço, px silveira!

  • ((( goiastexas ))) » Blog Archive » linha 102 said:

    [...] a geladeira e foi sentar na cozinha com os pés sobre a mesa)  posicionando-se sobre o porque que o Texas é aqui no Goiás (e em tantos outros [...]

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