fantasia e crise
O que eu vou chamar de fantasia é qualquer uma daquelas coisas que acontecem dentro da nossa cabeça, envolvendo personagens externos, a despeito do conhecimento deles.
É qualquer encontro, diálogo ou mesmo sensação, que para se realizar precisa de certas condições que não existem mas que são completadas por nossa mente imaginativa.
Aliás é preciso lembrar um pouco essa nossa capacidade de reproduzir em alguma instância mental, sensações desligadas dos fatos que naturalmente as gerariam.
Por isso choramos em novelas ou temos medo do Jornal Nacional.
À certa altura, nosso cérebro não distingue o real do falso posto que “confia” nas informações que lhe chegam através dos órgãos de percepção.
Como esses órgãos podem ser enganados, por recursos como por exemplo o cinema 3D, o cérebro também o é e nossa interpretação acompanhará o engano.
Uma vez tendo aprendido esse mecanismo, passamos a ter o poder de desfrutar das experiências não acontecidas. Numa fila de banco, podemos ter sexo, ganhar uma discussão, fazer sucesso, ou reviver infinitamente uma situação. Podemos também presenciar a queda de uma avião de dentro dele ou sofrer todo tipo de violência e injustiça pois
a mecânica da fantasia não distingue boas e más. Nem tampouco seleciona apenas as favoráveis a nós mesmos. E muito menos está sob nosso inteiro controle.
O que passa é que alcançar a sensação sem ter de se expor a seus riscos é barato. Seja para sair do cotidiano entediante ou para ensaiar uma situação que se pretende ser um dia real,
fantasiar tornou-se uma artimanha da mente que nos impede de viver o aqui e o agora. São terabytes de emoções implantadas contra poucos KBs de experiência real que acontecem ao longo de um dia. Futuro é fantasia, passado é fantasia e o presente não tem espaço. Observe-se.
Em suma, estamos falando de uma maneira de fazer as coisas do nosso jeito, já que o mundo tem o seu próprio curso e não cede a nenhum tipo de barganha humana.
Bom, essa nossa extraordinária capacidade custa, obviamente, um preço e a conta chega quando você entende que o imaginado não será realizado. Quando a reedição se desgasta
em sua própria repetição. Quando a capacidade de inventar em cima daqueles mesmos atores e cenários acaba. Daí temos, a meu ver, três primeiras possibilidades: tentar tornar a coisa
real, trocar de fantasia ou viver definitivamente ali dentro à custa de ser tolerado como louco.
O último caso é de qualidade patológica e meus palpites não podem alcançar. Mas nos 2 primeiros, sinto que posso falar de cadeira…:)!
Primeiro que trazer uma fantasia para o real é impossível porque os outros envolvidos não tem o conhecimento dos detalhes tão bem elaborados por você, e não poderão apenas fingir posto que se fizerem isso provavelmente não estarão cumprindo bem o papel determinado no script. Substituí-la por outra também vai depender de uma desqualificação da primeira que invariavelmente deixará a descoberto a sua própria atitude fantasiosa (essa que temos de negar a qualquer custo sob pena da historinha perder a propriedade de convencimento)
crise
Assim o paraíso das histórias pseudo-boas começa a ser permeado por instantes de irrtação que vão ganhando espaço até que envenena tudo e nos tornamos mau-humor, frustração, incapacidade, tristeza, imobilidade. E esse é precisamente o momento propício para quebrar o ciclo. Contudo é quando normalmente não temos força pois nossa energia foi toda consumida no teatro descrito acima. Porta aberta para a culpa (de ter fantasiado por não se sentir suficiente) e, uma vez que a culpa existe, melhor jogá-la pra cima dos outros. O sintoma disso é expresso no detestável ato de reclamar.
como começar a sair
Eu acho que abrindo espaço para o “agora” através do silêncio. Flagrar o diálogo fantasioso e detê-lo com silêncio. Passar momentos do dia sem conversar, sem ler, sem assistir nada, sem ver nada e
nessa hora perceber os próprios pensamentos como pensamentos e não como fatos acabados da sua vida. Valorizar a palavra falando só o que merece ser dito. Valorizar a você mesmo dando atenção só ao que merece ter atenção. Melhorar seu repertório e se tiver que cultivar alguma fantasia que seja a simplicidade.
texto: fabíola









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