((( grace )))
O CAMINHO MUSICAL BONITO DA GRACE
No nome do disco ela já logo diz que é “caminhante”: ser que transita, anda, percorre…
aberto às transformações da jornada. E o nome é ótimo porque para quem a conhece é o um
novo conhecer e para quem não conhece é um reconhecer de uma grande cantora, autora,
protagonista de sua sensibilidade, vetor de seu tempo.
Se quem caminha nunca está pronto, vai necessariamente recusar os fatalismos de olhos e
ouvidos que querem fixar identidades que são, sempre, incertas, inconstantes, abertas. E é
bem isso que eu sinto nesse primeiro trabalho autoral da Grace: uma estética da abertura, um
caminho que nem ela, nem ninguém, podem saber no que vai dar. E nem precisam porque
bonito é não saber e ter o que procurar.
A primeira música do disco, “Samba Branco” é uma sacada brasileira, latina, crioula e
descorada, deliciosa. Nela, a Grace, como autora, se assume num universo que ela sempre
transitou: o samba de raiz. Aqui ela percebe que neste mundo ser original é uma balela
forjada e que o melhor caminho é hibridizar os componentes vários de ser e estar numa
cultura fragmentada. O samba aqui vai ficando branco que nem a moça que canta, vai se
despigmentalizando, se desterritorializando num batuque de todos os tempos e de todos os
lugares. Ela diz que não teve ladeiras pra subir e nem o mar pra olhar, mas que os ouvidos
estiveram atentos na boa e velha vitrola, no som dos grandes mestres. Se pergunta: isso vai
funcionar? Esse negócio de deixar o samba branco? Bom, eu acho que já funcionou! Já é!
A segunda faixa, “Navegador”, encanta. Eu conheço essa música do Bruno Bonfá (UMBANDO
e VÍCIOS DA ERA) há um tempo e a Grace deu a ela um tom épico que nos leva exatamente
pra onde a música vai e de onde ela veio: dos mares fundantes dos navegadores portugueses,
interesses criativos de Bonfá que é discípulo e estudioso de Fernando Pessoa desde
criancinha. A música é linda e é a única do disco que não foi composta pela Grace, eu acho.
A letra coloca em cheque amor, destino, dúvida… “Num rasgo claro feixe de luz”. Em arranjos
eletrônicos a voz da Grace arrepia cheia de sentimento, o tom da música não cansa de subir e
a percepção, com os vocalizes que ela faz, vai às alturas!
“Tenha Calma” tem uma coisa que eu amo: dor de mulher. Porque é muito diferente e por isso
as compositoras são tão específicas no que fazem (sei lá… por isso até pode-se pensar que
o Chico Buarque escrevia no feminino pra tentar sentir como mulher). Sabedoria e dor muito
singulares. As mulheres sabem que as coisas nem sempre precisam fazer sentido para serem
belas. A Grace sabe: as sobras de um amor, um rosto, a noite, a vitrola. Fragmentos de uma
sensibilidade sem certezas. O batuque é leve, a guitarra acompanha a melodia. É soul e dub,
tudo muito intenso.
“Quiela” é um reggae muito massa, te faz levantar. “Caminhante”, que dá nome ao álbum,
tem arranjos de sopro e vocalizes belíssimos, além de uma letra instigante: “tá faltando um
amor pra te dar coragem”… “a caminhada é sagrada”… tem até um rap no meio da música!
O disco não é mesmo nada linear, vai e volta, sobe e desce… tudo bem pensado no acontecer
cheio de barulhinhos gostosos. “De Verdade” é sambinha pra lá de animado, uma epifania boa
como todo bom samba tem que ser. Nesta música acontece de novo o que eu gostei no disco
inteiro. A Grace deixa claro que a luz dela é a luz do planalto, é luz a do cerrado. Luz especial
que esbanja horizonte. Ela diz: “amanhecia e a luz do planalto dizia, é hora do horizonte brilhar
mais…”. Porque suprimir o lugar de fala não é uma atitude contemporânea, seria negação tola
e tentativa de ser algo que não se é. A Grace sacou que assumir o lugar da expressividade não
tem nada a ver com regionalismo, é maturidade artística, jeito de existir.
“Cara lavada” é um tapa (dos mais fortes) na cara de todos os homens que amam errado! No
que diz respeito a dor de mulher (adoro!) é um tratado! A batida quebrada desliza na letra que
afirma que ela, essa mulher, não quer ser cuidada. E a música também não quer, quer ser
solta, livre, dissolvida de referências. Assim se transforma, engendrada de desconhecidos.
“Do Glória” dá continuidade a busca e aos questionamentos da Grace: “Será que nesta terra
tem carnaval? Será que nosso samba é original? Será que nesta terra tem samba? Será que
alguém aqui sabe sambar?”. Não fica respondido, mas dá pra imaginar… se tem samba aqui,
não é como lá no litoral, não é como samba de morro, é outra coisa e a Grace está percorrendo
o caminho pra ser, seja samba ou o quê! Se é como o samba da Grace (o samba daqui
desta terra), é híbrido, plano, profundo, liso, fino, novo e desconhecido. É samba de fronteira!
Pois é, e é falando de samba que o disco termina. Numa delicinha “de raiz” super de bom gosto
da Grace. Um samba que poderia ter sido feito em qualquer litoral ou morro por aí, mas é daqui
e é bonito demais.
Então é isso que eu senti. A Grace, a cantora de samba e de rock de Goiânia, não é só isso,
é compositora de um liquidificador cultural. Seu disco é música contemporânea brasileira de
qualidade arrepiante. Tudo é breve, descontínuo, forte. O que ela diz se insinua nas melodias
criadas. Quem ouvir poderá fechar os olhos e esquecer a letra se deixando levar pelo batuque.
Os refrões simples e agradáveis encherão sua memória de afetos musicas inesquecíveis… e,
inevitavelmente, te farão mexer e remexer onde estiver, de alegria!
texto | marcelaborela
lançamento cd ” caminhante “










para ouvir a grace..
http://www.myspace.com/gracecarvalho
para ver e ouvir..
dia 1o de julho, 21h, no Espaço Equatore, em Goiânia
lançamento do CD ((( CAMINHANTE )))
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