“a inveja não goza de boa reputação”
Ser consciente é ser angustiado, pois somos cercados de oportunidades de desprazer o tempo todo, no meio das quais alcançamos momentos raríssimos de prazer.
Momentos curtos mas suficientes para percebermos que é aquilo que queremos e é para aquilo que nascemos. Nada mais importa e assim fica tudo certo … se soubéssemos como fazê-lo.
Perceber a impossibilidade de permanência nesse estado de não angústia é angústia*. Evitar a angústia é evitar a consciência e é nessa brecha que entram tanto a religião quanto a psicanálise.
Das possibilidade religiosas de paraíso, me gusta a idéia de samadhi. Primeiro porque já acontece por aqui mesmo e depois porque trata o aqui, o antes e o depois do aqui como uma mesma substância sendo o corpo apenas uma roupa (acho essa explicação muito razoável). Posso vir a mudar com o tempo, mas a partir do momento que resolvi buscar a felicidade em meu próprio terreno, são às pré-condições do samadhi que procuro me adaptar, mesmo sabendo a distância cósmica que estou de conseguir me sentir como “pertencendo” ao próprio cosmos**.
E é exatamente esse detalhe que me pega hoje. Ver a distância e a impossibilidade de vencê-la dentro das minhas atuais nocões de medida, me levam para o jogo psíquico que usualmente nominamos ego. Jogo porque o que me separa do tal estado ideal citado é o ego, e nas minhas atuais possibilidades de percepção, o ego é tudo que eu “tenho” e é tudo que eu “sou”. Portanto, é ele que deve driblar a si mesmo para escapar de sua própria influência … aF.
A luta em que Krishna orienta o príncipe Arjuna, começando por encoraja-lo a não desistir, a lutar mesmo que nessa guerra tenha de matar todos os seus entes amados e aqueles por quem dedica respeito, acontece dentro da minha cabeça, todas as manhãs, antes mesmo que eu abra os olhos. Acontece quando estou no banho, quando estou dando aula, enquanto desenho ou dirijo meu carro. O conflito chega em torrentes de pensamentos, sempre os “mesmos” e eu controlo esses pensamentos como um registro espanado controla a água. No meio disso firmo, com o auxílio de mantras, livros, amigos, mestres, o “mestre” e toda uma coleção de insucessos de tentar de outra forma, no rumo do ((( silêncio )))
Acreditar no Samadhi é crer que é no nada que habita o tudo. Alcançar o silêncio é criar espaço para que esse tudo o preencha. Unidade: 0 e 1, simplíssimo assim.
Daí que vamos dissecando esse tal ego, tentando flagra-lo e começamos pela “sombra” que é aquele lado que deixamos propositalmente sem luz pois é ali a casa da angústia e ela gosta do dark…:)
Nessa, o primeiro parente que vi foi o orgulho. E estava indo tudo bem ao me perceber orgulhosa pois sempre foi da natureza dessa emoção “orgulhar-se” de si mesma: tudo em casa. Contudo, nesse percurso, aquele túnel que parecia me levar para as profundezas das minhas causas inconscientes que alimentam esse tipo de comportamento acabou dando foi na porta de um palco iluminado, e na platéia todos os meus assistindo há tempos o que eu em minhas atitudes afetadas (orgulho e afetação caminham de mãos dadas) pensava conseguir esconder … ui. Vergonha. Depois a necessidade de desenvolver a resignação pois são tantos os palcos e platéias quanto são meus ataques de orgulho e saber disso não é o suficiente para interrompê-los posto que são partes essenciais de meu “modusvivendi” … não sei fazer de outro jeito e qualquer alteração que eu consiga por agora é superficial.
Depois dessa porta aberta veio o ciúme, sentimento cotidianamente validado por bobagens sociais, o ciúme é a soma de duas coisas: medo (de escassez) e mesquinharia (que é medo de escassez). E aí veio a última surpresa, por causa da qual nem vou me estender sobre o ciúme, porque passei a vê-lo como um mero braço daquilo que pega mesmo : a Inveja. Pois é.
Li *** que a inveja é complexa porque não basta termos algo exatamente igual ao objeto desejado e que pertence ao outro: tem que ser aquele! Pois precisamos tomar também a alegria do outro e se não fosse assim a inveja seria admiração. Contudo não é também qualquer momento de alegria que queremos roubar, mas aquele instante específico causado pela posse de algo que eu quero porque me faz falta. Só aquilo completaria a lacuna que tenho desde sempre e que se traduz em … angústia. Por isso a inveja está diretamente associada ao fenômeno da idealização que por sua vez confunde-se com … amor … ui denovo.
texto: fabíola | imagem : Dante e Virgílio no Inferno; pintura de Bouguereau
( * ) Dimas Caligari na palestra De Reich ao Coração
( ** ) pra quem quizer tentar apressar as coisas, Swami Sivananda recomenda:
If you want to enter Samadhi quickly, cut off all connections with friends, relatives, etc.
Do not write letters to anybody. Observe Akhanda Mouna or the vow of continued silence for
one month. Live alone. Walk alone. Take very little but nutritious food; live on milk alone if
you can afford. Plunge in deep meditation. Dive deep. Have constant practice. You will be
immersed in Samadhi.
Be cautious. Use your common sense. Do not make violent struggle with the mind.
Relax. Allow the divine thoughts to flow gently in the mind.
http://my.yoga-vidya.org/profiles/blogs/how-to-enter-samadhi-quickly
( *** )
o texto é “Inveja” e está no livro “Os sentidos da paixão” Renato Merzan, Ed Companhia das Letras










muito bacana! note no quadro o “vampiro” sugando a essencia do outro com sua inveja sedenta e cheia de dentes…
e o joelho nas costas ???
amoreco vc está ficando gênia da escrita. aprendo com vc every day na distância e na presença. vou virando gente grande aos poucos e ainda meditamos juntas uma hora dessas. amor amor amor. (((obrigada))) digo isso por todos que lerem e por mim sobretudo.
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goiastexas
um misto de inconformidade com a jequice e um pouco de admiração pelas qualidades do isolamento