linha 102
Primeiro foi a própria Fabíola (que vos fala) que começou a escrever descrevendo seus passo-a-passos.
Depois veio a opurtunidade de postar (pela segunda vez) um texto genial do OscarFortunato sobre a história goiana.
Claudinha atendendo a um pedido nosso para que nos explicasse ( fabíola&fabiano ), o fez com muita simpatilha e direito a publição dos bastidores.
Ali ela já apontou um caminho. Seguimos.
Marcus Vinícius trouxe uma idéia política muito decente pra uma área que precisa de idéias e tem de ser ocupada pela decência. O Fabiano deixou o ambiente ” gonzo ” digitando textos ” gonzo “.
O marcoscaiado, eu mesma busco suas poesias por minha conta pra postar aqui porque adoro.
E hoje veio Marcela Borela (que entrou na casa, abriu a geladeira e foi sentar na cozinha com os pés sobre a mesa) posicionando-se sobre o porque que o Texas é aqui
no Goiás (e em tantos outros lugares)
Até que chega o ((( REI ))) e me manda um texto de qualidade literária à altura do seu nicktítulo contudo, erótico !!! Mas tão erótico que nos obrigou a fundar dentro do goiastexas a categoria literatura pra contextualizar você meu amigo que vai sair de um post que fala da unidade cósmica essencial ((( Deus ))) e cair na história da “Linha 102″
muito obrigada a esses amigos por atenderem ao convite
((( enjoy )))
Linha 102
Eu gostava de imaginá-los nus. Com esse especificamente, eu me divertia pensando em quão fidedignas seriam as tênues marcas que o uniforme da escola delineava em seu tórax. O caimento da camiseta branca, com duas linhas transversais azuis que iam da gola em V até pouco abaixo das axilas, sugeria um peitoral largo, atlético, magro. O nome do colégio, dentro de um retângulo vermelho, cobria o peito exatamente na altura dos mamilos, e impedia-me de ver-lhes o contorno. Gostava de supor que eram do tamanho certo e da mesma cor dos seus lábios levemente escuros, formando um díptico perfeito que se destacaria do resto de sua pele morena.
A barriga não aparecia, escondida no vão que se formava no interior da camiseta, entre a parte mais protuberante do peito e a do cinto de lona que atava a calça jeans. Vez ou outra, quando ele levantava os braços até perto do teto para solicitar a parada do coletivo, eu quase podia ver a pele do baixo abdômen, e imaginava qual desenho aqueles pêlos – que, na verdade, eu não chegava a ver – formariam com o resto dos pêlos abaixo do cinto, sob a calça jeans. Cheguei cogitar se naquele movimento de levantar os braços e puxar a cordinha não haveria uma provocação camuflada, já que cada uma das colunas de ferro ao longo do corredor do ônibus tinha botões, na conveniente altura do seu umbigo, com a mesmíssima finalidade de pedir ao motorista que parasse. Depois, achei que era apenas um desejo meu. Era óbvio que ele não estava me provocando; ele nunca tinha me olhado.
O que eu gostava mesmo de imaginar era a parte inferior do seu corpo. Nunca o tinha visto de bermuda, mas, uma vez que foi sem meia, vi que eram muito poucos os pêlos perto do seu calcanhar. E, desse dia em diante, concluí que teria coxas quase lisas, que seus pêlos estariam todos concentrados no púbis, e que seriam tão poucos que eu poderia escondê-los todos sob minha mão quando ela escorregasse pela primeira vez para baixo – e para dentro – do cós de sua calça.
No início, coincidíamos no ônibus da manhã, e algumas vezes pude sentir seu cheiro de quem, com aqueles cabelos revoltos, saíra da cama havia pouco. Imaginava que antes de levantar-se, aproveitando-se da ereção que, aos dezesseis ou dezessete anos devia ser-lhe corriqueira, masturbava-se e gozava na sua cueca, e que ia para a escola assim. Quando passava perto de mim, eu respirava profundamente, e algumas vezes cheguei a sentir o cheiro de porra que exalava dele.
Um dia, porém – que surpresa! – encontramo-nos no ônibus da tarde, quando ele voltava para casa. Ele transpirava, eu via seus cabelos grudados nas têmporas, uma ou outra gota escorrendo, que ele limpava com seu pulso forte. Devia estar vindo da aula de educação física, ou talvez correra para não perder o coletivo, mas eu gostava de imaginar que estava suado porque acabava de fazer sexo com alguém, que havia levado uma colega qualquer a um canto da escola, no fundo do campo de futebol e que a havia comido meio à força, com as calças arriadas até a altura do joelho para não perder muito tempo e ainda conseguir pegar aquele ônibus e mostrar-se para mim suado, exibir-me sua virilidade impúbere. A garota, meio confusa, tinha ficado lá, recuperando-se e procurando sua calcinha, que ele havia atirado para o lado com displicência e fúria. Ela havia gostado, mas isso não importava; ele a teria comido mesmo se ela, depois de beijar-lhe a boca e segurar-lhe o pau, duro e úmido, tivesse dito um não mais categórico. Seu sorriso safado e satisfeito no ônibus dizia alto para mim que ele era macho, que meus olhares libidinosos não o atingiam nem lhe causavam incômodo. Assim nos relacionávamos: ele de longe, eu de perto.
Depois daquele dia, passei a freqüentar também o ônibus da tarde. Não nos custava nada. Para ele, era simplesmente o ônibus que tomava para ir-se embora; para mim, era um desvio da minha rota vespertina habitual, mas que, naquelas circunstâncias, valia a pena. Eu estranhava que estivesse sempre só, que nunca subisse com um colega, com uma namoradinha assanhada. Às vezes, recebia uma mensagem no celular, e ele sempre respondia prontamente. Eu imaginava o texto: “to xegando, akabo d traçar a marcela, vou contar tudo p vc, kkk”. Era para seu vizinho, com quem se juntava à tarde para contar os detalhes de suas trepadas. Ele até desconfiava que seus relatos excitavam o amigo mais novo, mas não pensava muito nisso; gostava de provocá-lo, deixá-lo com tesão. Apimentava as histórias, exagerava, mentia um pouco. Um dia, disse que tinha comido o cu da faxineira da escola no almoxarifado, que uma garota do 2o B havia mamado seu pau e que ele gozara na sua boca. Outra vez, falou que, enquanto metia em uma delas, vira que um garoto os observava e se masturbava, e divertia-se com o olhar assustado e enciumado do amigo, que nunca tinha tido o privilégio de vê-lo em ação.
Quando ele descia do ônibus, eu tinha ímpetos de segui-lo, de ver onde morava, de ver quem era seu amigo que podia desfrutar em primeira mão das histórias que eu só imaginava. Mas eu me continha, virava-me para trás e contentava-me em observá-lo cada vez mais ao longe, até ser encoberto por uma curva ou um caminhão. Amanhã, tínhamos dois novos encontros.
No fundo, eu sabia que aquela obsessão era totalmente doentia, que eu não devia ter mudado minha rota vespertina por causa dele, que ele era só um garoto, que talvez fosse até virgem. Mas ele era uma tentação incontrolável. Se eu pensava, por exemplo, que ele era virgem e tentava, assim, afastar aquela imagem de um comedor jovem e másculo fodendo garotas em situações quase ilegais, pegava-me igualmente excitado com sua possível castidade. Imaginava-me virando-o de costas e enfiando-lhe minha rola, impiedosamente, para puni-lo: “Isso é o que eu faço com garotinhos virgens que não têm competência para usar seu próprio pau!”. E estapeava-lhe com tanta força a parte de trás da coxa, perto das nádegas, que deixava por uns dias a marca da minha mão grudada na sua pele. E passava horas sonhando com aquilo. Várias vezes, esqueci de descer do ônibus, vivendo e revivendo o nosso romance obsceno.
Nos meus devaneios, eventualmente era ele quem me procurava. Ainda suado e ofegante, recém-findo o seu encontro sexual da tarde, sentava-se perto de mim, nos fundos da condução vazia e barulhenta, e, sem dizer-me uma só palavra, dava-me seu dedo para que eu o cheirasse. E eu sentia o odor da menina que, àquela altura, ainda devia estar terminando de vestir sua roupa interior, ajeitando o sutiã, que ele não desabotoara, e pondo-o de volta sobre seus seios, úmidos da saliva dele. Um dia, ele me deixava um bilhete ao descer do ônibus. Entregava-me discretamente, assustado, com medo de que alguém pudesse ter percebido sua suspeita aproximação. O bilhete dizia que ele vinha me observando havia meses, que ele sonhava sobre como eu seria pelado, que ele me imaginava transando, que ele me via masturbando-me pensando nele, que ele queria sentir a força de uma bofetada minha na sua bunda, que anelava por meu membro.
Percebi que eu estava chegando ao limite da minha razão quando, uma tarde, finalmente tomei coragem e desci do ônibus atrás dele. Estava tão nervoso que minhas pernas tremiam violentamente, não conseguia coordenar os passos, não ouvia nada. Eu não sabia aonde ia chegar com aquilo, e sentia-me inebriado com as possibilidades de infinitos desfechos que histórias prestes a iniciar proporcionam. Eu arquejava, sentia o coração na boca. Seguia-o de longe, fixado em sua nuca e sua bunda; tinha a impressão de que todos me olhavam, reprovavam minha depravação, meus pruridos animais. Reprimiam-me com seus olhares falsamente recatados. Hesitei por um instante. Olhei para baixo por não mais que um segundo, mas o perdi de vista. Achei que era um sinal e fui-me embora aliviado.
Isso foi numa sexta-feira. Passei o fim de semana transtornado, contando as horas para revê-lo. Pensava nele sem parar. Dei-lhe dezenas de nomes, só menos do que apelidos, que iam do mais carinhoso ao mais perverso. No domingo à noite, resolvi que tinha que fazer alguma coisa. Nossa relação não podia continuar assim. Decidi que ia lhe falar.
Na manhã da segunda-feira, eu não sentia nada além de ansiedade. Embora um pouco nervoso, eu tinha esperanças de que tudo terminaria bem. Era como se fôssemos amantes de longa data que iam, simplesmente, mudar a base do relacionamento. Encerraríamos um período de provocação velada para algo mais sincero e maduro. Rompantes de lucidez sussurravam-me que eu estava louco – não havia história nenhuma em comum, só o que havia era obsessão e degeneração de um lado e ignorância do outro. Entre um pensamento e outro, convencia-me ora de um argumento, ora do oposto. Buscava provas de que havia algo: era claro que ele me provocava, ele não precisava tomar sempre o mesmo ônibus, ele não precisava quase mostrar-me os pêlos da sua barriga, ele não precisava esfregar-me na cara que tinha acabado de trepar em público. Se ele gostava de me atiçar, aprenderia a gostar de me satisfazer.
Quando ele entrou no ônibus de manhã, eu me congelei. Pensei mil coisas. Pensava que ele me agarraria quando eu me declarasse, que nos beijaríamos ali mesmo, que eu desfaleceria de emoção. Pensava que ele me chutaria, me xingaria. Pensava que me comeria com ódio, sem beijar-me nem permitir que outra parte sua além do seu pau se encostasse em meu corpo. Fiquei naquele transe quase todo o percurso; uma pessoa teve que me empurrar para passar ao meu lado, e supus que ela devia ter pedido licença várias vezes, sem que eu a escutasse. Quando seu ponto estava por chegar, juntei todas as forças que tinha, mas elas ainda foram poucas. Quis chamá-lo, mas não consegui. Fui cutucá-lo, mas o nervosismo era tanto que deixei meus óculos caírem no assoalho do ônibus. Nesse momento, ele, muito gentil, abaixou-se, pegou os óculos e me entregou. Olhou-me de relance, com a mesma pouca importância que, em seu jogo de sedução, era-lhe permitido dar-me. Não chegamos a nos tocar naquele ato, mas, com a ponta dos meus dedos, senti o calor da ponta dos seus. Tive inveja dos meus óculos.
Minha manhã foi interminável. Perdia-me entre a lembrança dos seus olhos castanhos e toda sua testosterona, que ainda impregnava a haste dos meus óculos. Eu contava as horas, criava coragem, ensaiava frases, imaginava situações. Não almocei.
À tarde, eu o avistei já de longe, esperando o ônibus sob a marquise da farmácia, tratando de esconder-se do sol escaldante de novembro. Tinha um dos joelhos dobrados, o tênis sujando a parede caiada. Excitavam-me seu descaso para com o dono daquele muro onde ele deixava suas nódoas e o modo relapso com que carregava seus cadernos.
Quando ele entrou, passou pela roleta e sentou-se duas fileiras diante da minha. Não tive medo; queria chegar logo em casa e virar sua puta. Eu sabia que cinco ou seis pontos adiante, na parada do metrô, quase todo mundo desceria, e teríamos um pouco de privacidade para nossa conversa. Quando, de fato, estávamos no ônibus apenas eu, ele e uns seis passageiros mais, aproximei-me solenemente. Sentei-me no assento imediatamente atrás dele, vi mais uma vez sua nuca úmida de suor, mas já não pensei em por que estaria molhada. Não queria saber o que ele estivera fazendo; só me importava o que ele faria comigo logo mais. Eu estava excitado.
Toquei seu ombro. Ele se virou e eu disse qualquer coisa, provavelmente uma frase atrevida ou desconexa. E só então eu caí em mim. Ele me olhou nos olhos, mas não me reconheceu. Eu era um estranho absoluto; não havia nada ali; nunca houvera nada entre nós. No seu olhar, uma mistura de susto, de incredulidade, de indignação, de desprezo. Na verdade, acho que sequer chegava a tanto. O vazio que eu vi colocou-me no meu devido lugar, deu-me a exata medida de quem eu era. Eu era – e sempre seria – só um velho tarado, sem vergonha na cara, desocupado, descasado e infeliz, que perseguia garotões pelos ônibus da cidade.
Depois desse dia, tomei uma resolução muito séria e nunca mais persegui ninguém na ida e na volta, nem alterava caminhos ou horários por causa de nenhum deles. Restringi-me a um garoto por rota, e a uma rota por garoto. Eu não queria correr o risco de deparar comigo mesmo outra vez.
((( rei ))) é o nicktítulo da vossa majestade que foi assim escolhido para mostrar sua vitoriosa despretensão ao apelidar-se de um nome tão comum normalmente utilizado para designar lojas de bateria, chaves e costela no bafo.










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