meditação
Entro no auditório que é pequeno e parece absolutamente lotado. Minha primeira reação é de desistir. O segundo e terceiro pensamentos também, mas, já saindo, resolvo voltar e entrar
no salão caminhando até onde conseguir.
Com dificuldade de equilíbrio, vou evoluindo entre as pessoas que estão sentadas no chão. Incomodando, peço desculpas quando dá e derrepente relaxo porque
já me vejo num ponto em que voltar ou prosseguir irá causar o mesmo disturbio entre aqueles que chegaram mais cedo.
Desse ponto, vejo um lugar do outro lado. Continuo o caminho desequilibrada até alcançar o local que na verdade é um espaço espremido no cantinho da escada. Me sento.
Logo alguém bate no meu ombro e me aponta uma cadeira vazia. Vou pra lá. Agora está tudo bem e posso esperar observando o movimento, tranquila, vir o início da palestra.
No salão muita gente conversando e outros já em silêncio. Me distraio com a conversa deles e reparo que enquanto uns se saudam efusivamente, outros resmungam contra o aperto ou alguma situação. Crianças choram, alguns estão rindo alto demais e se esmerando no entusiasmo.
Logo do meu lado equerdo uma conversa otimista entre duas pessoas, empolgadas sobre a oportunidade da palestra. Do meu lado direito, o contrário, num diálogo pessimista outros dois
colocam-se a questionar se esperar tanto e naquele calor valerá mesmo a pena. Também manifestam medo, lembrando que num lugar tão cheio, se acontecer um incêndio, todo mundo pode morrer. As paredes do auditório não são suficientes para isolar o barulho do trânsito infernal do lado de fora.
Tirando uma e outra fala mais exaltada, o que ouço é uma massa sonora indefinida, som típico de muitas pessoas conversando ao mesmo tempo, de onde às vezes se desprendem algumas palavras . De vez em quando uns “psius” diminuem a intensidade das vozes mas isso é passageiro.
Eu já começo a me contaminar com a impaciência dos meus companheiros da direita
mas não me junto a seus comentários quando provocada a isso, despistando com um sorrisinho.
Me irrito um pouco com o entusiasmo cego dos companheiros da esquerda e me recuso a dar-lhes um sorrisinho de aprovação quando provocada a isso.
Para minha surpresa, o palestrante tão esperado, já está lá, de olhos fechados, com os dois braços bem apoiados nos braços da cadeira e os pés bem plantados no chão.
Chegou sem ser anunciado por ninguém e, ao contrário do que se esperava, não tomou o microfone – embora tivesse um – para silenciar as pessoas sobrepondo a sua voz às delas.
À medida que todos iam percebendo a sua presença,também se calavam. O auditório foi se acalmando e as pessoas parando de se agitar em seus lugares,.
Silêncio quase absoluto, menos – para meu azar – meus vizinhos. O lado de onde antes vinha uma expectativa positiva,agora tornara-se um conjunto de exclamações de apreço ruidosas. Quem antes estava reclamando, agora critica abertamente aquela postura negligente dele que faz o contrário do que eles queriam: ao invés de falar, cala-se.
Bem impaciente, a ponto agora eu mesma de abandonar o local por causa deles,incomodada também pelo som que vem de fora que parece ter piorado com a quietude interna, respiro bem profundamente e determino me esforçar muito para parar de ouvi-los.
O som da minha própria respiração e também a atitude ereta que resultou dela, chama a atenção dos companheiros do lado que, apesar de não pararem de falar totalmente, agora o fazem em cochichos.
Busco me sintonizar com o palestrante silencioso, me concentrando no meu próprio silêncio. Alguma coisa, talvez ele mesmo, me diz que assim poderei ouvi-lo.
Experimento derrepente uma mudança sutil de estado físico, mas intensa psicologicamente. A textura interna muda, externamente já não interessa, e me sinto feliz … mas muito feliz.
Não sei exatamente quanto tempo essa sensação dura, mas passa e as vozes começam a entrar denovo.
Contudo a tal alegria está na minha memória e me deixa receptiva as palavras do palestrante que finalmente começou a falar. Ele conta a história de alguém que chegando num auditório lotado, pensou em ir embora, mas resolveu insistir …
texto e foto : fabíola










Leave your response!