O homem móvel (fabiano)
Por Fabiano Morais – abril 2005
“I wish I knew how it will be to be free. I wish I could break all the chains over me…” Nina Simone.
Alguns fatores convergentes como a rápida evolução dos transportes e comunicação, flexibilidade(1) na produção de bens, robotização da produção, deslocamento do trabalho para o setor de serviços e a crise do trabalho assalariado (até então chamada “graciosamente” de desemprego estrutural) contribuem para o surgimento de uma nova forma de interação entre as pessoas.
Neste artigo, procuro explorar o impacto destas transformações, sobretudo no indivíduo, que passa a assumir um “estado móvel”(2) e nas novas possibilidades que se abrem a partir do teletrabalho.
Sob o ponto de vista das organizações o teletrabalho é uma alternativa para a necessidade de flexibilização e serve como uma resposta à constante pressão por custos baixos e alta produtividade. É crescente o número de iniciativas que repensam o escritório como um ponto de encontro, um local para interações face a face, para buscar inspiração, motivar e ser motivado, compartilhar. Não mais como um “ponto de controle”. Não desconsideremos contudo que há um deslocamento do controle para outras esferas(3).
São várias as pesquisas sobre teletrabalho: economia, questões ergométricas, a “baia” residencial, tecnologia, comunicação, disciplina, convivência familiar, conflitos, autoridade, controle, preguiça e por aí vai. E muitas aplicações tecnológicas práticas: WI-FI(4), banda larga, celulares de última geração, VoIP (voz sobre IP), ambientes de trabalho virtual, teleconferência, videoconferência etc.
Aqui, favoreço contudo, a investigação pelo ponto de vista da pessoa, onde creio, estão as mudanças mais relevantes e suplantam a dimensão tratada nas organizações.
Competição colaborativa
O indivíduo tem as fronteiras de sua vida pessoal e profissional indefinidas, mas tem a chance de atenuar este conflito ao assumir controle e definir, ao contrario da posição passiva de outrora, seu modo de vida e sua forma de trabalhar.
Hoje a expressão teletrabalho faz tanto sentido na sociedade contemporânea deste início de século, quanto fazia a expressão “carruagem sem cavalo” (horseless carriage) para os primeiros automóveis no princípio do século passado(5). É, portanto, uma referência ao conhecido para lançar a primeira fagulha de compreensão sobre o desconhecido. Afinal, teletrabalho é simplesmente: trabalho.
E uma nova forma de trabalho está renascendo. A base disso não são as corporações, mas as pessoas, que reconhecem em si um talento em potencial e se agrupam com outros talentos em torno de um projeto coletivo. Este novo formato é marcado pela competição colaborativa(6). E demanda de cada indivíduo nada mais do que o esforço pessoal em torno do seu talento e de suas relações. A motivação de empreender em algo é tão importante neste caso quanto a vontade de fazer o que gosta. Da forma que gosta. O trabalho passa a ser uma coisa que você faz, e não que você possua e que lhe é entregue ou tirado fora(7).
Na medida que a rede é formada a partir de talentos e habilidades genuínas e uma percepção aguçada do seu contexto, são cridas as condições para a auto-organização.
“Só sujeitos que se compreendem como tal aceitarão o exame crítico de suas motivações e do sentido de sua ação”
André Gorz.
Esta forma de trabalhar envolve, necessariamente, o fluxo de informações entre pessoas. A tendência atual é que grande parte do trabalho realizado seja, mais freqüentemente, relacionado ao tratamento de informação do que a transformação de matéria.
Coletivos inteligentes
No mundo das formigas, ao contrário do que o senso comum diz, a Rainha não exerce um comando, não tem função hierárquica. Sua função é única de reprodução. Todas as outras formigas se auto-organizam num esquema colaborativo de trocas e relações, onde cada uma deixa pistas sobre o contexto (na forma de feromônios). O formigueiro chega a 15 anos de idade (idade máxima da rainha), mas cada formiga, vive em média apenas um ano. Ok, não somos formigas. Mas podemos ser animais colaborativos.
“O poder e a identidade de um grupo dependem mais da qualidade e intensidade da sua conexão consigo mesmo do que de sua resistência em comunicar-se com seu meio. Este poder emerge a partir da capacidade de aprender e de trabalhar de maneira cooperativa, com o grau de confiança e reconhecimento recíprocos.”(8)
As pessoas se organizam em redes sociais, coletivos. Se agrupam por reconhecer a força cinegética disto. Os coletivos, por sua vez, se linkam com outros coletivos. O “elenco” se dedica a uma obra, missão, projeto. Em geral com início, meio e fim. Ao final, pode até ser que o mesmo elenco se repita, mas em geral, o coletivo é nômade-mutante. Diria melhor.. orgânico. Como há um crescente componente de informação, o trabalho pode trafegar pelos cabos, ondas, sinais captados pelos mais diferentes aparelhos-meios. Estruturas midiáticas multidirecionais.
“O trabalho de produção material, mensurável em unidades de produtos, por unidades de tempo, é substituído pelo trabalho dito imaterial, ao qual os padrões clássicos de medida não mais podem se aplicar”. GORZ
Destaco alguns exemplos de coletivos inteligentes: as comunidades de software livre(9), as reuniões de artistas em torno de uma obra (10) (muitas vezes não autoral), acontecimento (happening), ou de uma idéia. Talvez os artistas, porque são os mais “desafetados” pela forma cristalizada de estruturas de trabalho e poder. E por conseqüente, tem menos do que se “libertar” da lógica anterior. Ao se reconhecer artista, passa necessariamente por se conhecer.
Minha experiência
Em 97 comecei a atender meus clientes pela Internet. Nesta época, vivia nos EUA e mantinha o atendimento dos clientes no Brasil via email, mensagens instantâneas e teleconferência. Foi aí que percebi minha vocação nômade e minha incapacidade de trabalhar no modelo tradicional. Desde então construí com a equipe Planner a ferramenta Maestro(11), de onde é possível acompanhar a gestão de projetos via WEB. Hoje é através do Maestro, associado ao modelo adotado de Gestão por Projetos que coordeno projetos de marketing de relacionamento geograficamente distribuídos.
Claro que o olho no olho da presença física continua sendo importante. Mas a proposta é dar qualidade a esta presença, ou seja, realmente valorizar os encontros, já que eles ocorrerão menos por força do hábito e mais pela real necessidade.
Conclusão
O que se propõe então não é apenas a utilização das últimas possibilidades tecnológicas e de comunicação, mas um novo pensar sobre o que é o trabalho, a quem e a que está servindo. É perceber que a liberdade que as revistas de informática alardeiam com o WI-FI não se transforme em uma nova coleira de silício. E que a verdadeira liberdade está em ser. É!
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[1] GORZ, André. Misérias do Presente, Riqueza do Possível, pg 37.
[2] LATOUR, LÉVI. A Revolução contemporânea em matéria de Comunicação. In: MARTINS, Fransico. SILVA, Juremir. Para navegar no século XXI : tecnologias do imaginário e cibercultura
[3] alguns exemplos do controle virtual: stauts no MSN, sites proibidos, sistemas de vigilância e monitoramento
[4] Wi-Fi (Wireless Fidelity), tecnologia sem fios de curto alcance (até 300 m), que permite o acesso em Banda larga (até 11Mbps) via rádio. A infra-estrutura de acesso pode ser instalada em locais públicos, como por exemplo, Aeroportos, Hotéis, Centros de Conferências e Centros Empresariais
[5] GORDON, Gil. From “Oh?” to “Oh!” to “Oh …” : The Emergence, Evolution And Imeding Disappearance Of Telecommuting/Telework, p. 7.
[6] A palavra competição vem do latim competere, que significa “tender a um mesmo ponto”. LEVI, Pierre: A conexão Planetária. Pg 98.
[7] GORZ, André. Misérias do Passado, Riqueza do Possível. Introdução.
[8] MARTINS, Francisco e SILVA, Juremir. Para navegar no século XXI: tecnologias do imaginário e cibercultura, apud, LÉVY, Pierre. A revolução contemporânea em matéria de comunicação.
[9] veja o link http://www.gnu.org/licenses/licenses.html para mais informações sobre software livre
[10] Participo de um projeto artístico coletivo chamado GOIASTEXAS que se articula nos diversos meios pessoais, impessoais, internéticos e telepáticos. Este coletivo pode ser visto no link http://goiastexas.blogspot.com/
[11] O Maestro é um Sistema web de Gestão de Projetos e Relacionamento. Uma plataforma de teletrabalho fruto original da experiência prática de uma empresa que o pratica. Mais informações sobre o Maestro e sobre a Planner em www.plannermd.com.br









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