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o zero e o nada de Rita, Margarida, Terezinha e Sirlene

9 May 2010 No Comment

Chamada ao lado de sua mesa para responder a uma única pergunta da tensa + pelo formato que pelo conteúdo – prova oral,  fui e esperei a pergunta de pé.
A lógica aplicada de chamamento sendo a alfabética  e meu nome iniciado com “ƒ” garantiam uma sala ainda cheia de alunos esperando sua vez em silêncio.

” O que de mais importante você aprendeu nesse trabalho ? “  Depois de ouvir a pergunta,  vi desenhar nos lábios da Sirlene, uma colega sentada na primeira cadeira um  … nada …

Sem saber porque,  achei melhor atender a colega do que a professora respondendo, “nada”
Terezinha cresceu na voz ao mesmo tempo que deixou exposto seu limite de autoridade: ” responda qualquer coisa que você se lembra de ter estudado nesse trabalho”
Vendo o sorriso de olhos da Sirlene  encorajei-me a permanecer no “nada” . Na segunda pausa da professora, vi  escorrerem  as condições de “corrigir”  a situação. Terezinha me deu um zero.

Sirlene ajudou a esparramar a história no colégio, e para minha surpresa, sem ter percebido sua participação.  Também tive a oportunidade de ver que  depois de um zero “nada” acontece. Escondi dos meus pais e recuperei a nota focando nos números igual se recupera de um saldo negativo no banco.

A professora Rita veio dois anos mais tarde em outra escola e em outra cidade. Tinha um sotaque de algum país do nordeste, usava óculos de leitura na ponta do nariz, era morena, tinha de  50  a 59 anos sendo séria sempre.
Numa aula, quando estávamos sentados em círculo à moda “seminário”,  a dita me fez uma pergunta.

Dessa vez fui a escolhida porque estava conversando, talvez um pouco até alto demais.
Alguém conversando magnetiza os outros e era eu quem estava sendo o imã. A professorarita inverteu a polaridade perguntando com uma voz acima das  outras ao mesmo tempo que empurrava todos os olhares pra mim,  algo que de cara já não podia responder:  não tinha ouvido a pergunta.

Assim me tirava também a segunda opção de saída que seria pedir pra ela repetir. Isso estava fora de questão por dois motivos: primeiro que seria aceitar a acusação implícita de que eu estava atrapalhando a aula.  Segundo por  duvidar que minha fala conseguiria romper aquele silêncio, entregando o pouco que me restava  numa tremura da voz. E por último, a certeza de que eu não saberia responder porque carregava na consciência  que aquele tipo de falta  era irremediavelmente punida com a “burrice”.

A única saída honrosa disponível era desafia-la pondo tudo na voz, e,   ainda mais refinada, no tom :  “não sei não” !

A Rita não gostou da resposta.

Sustentando seus olhos nos meus, sacudiu para os lados a cabeça já  vitoriosa e pseudo-desapontada:
“não sabe história nem português, Que feiúra usar dois “nãos” numa única frase”.

Hoje, reparo que além de  ser professora de história e me importar com português, acabei também “meme”tizando a arrogância intelectual dela.

O evento mobilizou uma série de reaçõess íntimas  relacionadas  tanto à autoridade da professora quanto com o julgamento instantâneo de meus colegas, ajudando  a fixar para bem e para mal, alguns de meus modos relacionados aos momentos  em que ainda estão em jogo autoridade matriarcal e julgamento corporativo.

O que me trouxe a professora Rita à memória e  acabou  puxando também a Terezinha, foi a Dona Margarida, atualmente minha aluna de pintura que trabalhava na escola desde antes de eu estudar lá. Ela falou comigo da Rita porque antes eu me lembrei dela, Margarida, “não sei de onde”,  “eu trabalhei a vida inteira na Escola”, “então é de lá”. Rimos.
“Mas agora me aposentaram, meus dias lá dentro foram contados, temo que os daqui de fora também” … eu disse, ” Margarida, desapega e pinta”.

texto : fabíola

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