Sri-Nagar&ego
O ego é uma entidade que pra existir precisa estar munido de suas defesas todas.
A contemplação é o mecanismo que temos de desligar tais defesas, porque elas consomem energia assim como manter um exército consome a energia de um país.
Quando estive na Caxemira, fiquei ligada no fato da maioria da população masculina com saúde e em idade de produzir estar nas ruas segurando armas.
A questão que me veio à cabeça era como aquela região – não posso dizer país porque a Caxemira legalmente é Índia - sendo tão pobre, podia sustentar aqueles homens que, na prática, passavam o dia inteiro fazendo nada.
Ali também começava minha viajem pelo hinduísmo, que ainda continua, cada vez mais prazerosa e reveladora. Em Sri Nagar visitei o primeiro templo, que fica no alto de uma colina
bem alta. Por sua posição estratégica, esse lugar esta ocupado pelo exército, ou seja, em torno do pequeno templo estão aproximadamente, segundo o motorista que nos levou lá, 20.000 homens, fortes, bem alimentados, bem vestidos, armados e a toa.
A paisagem tem lago cor-de-rosa, Himalaya e o perfil e som de inúmeras mesquitas – porque apesar de eu citar o templo Hindú, Sri-Nagar é majoritariamente muçulmana.
Contudo a presença do exército (e do lixo…sacolinhas de plástico! e embalagens de “junkiefood”) deixa esse momento de contemplação constrangido. Eu na verdade tive vontade de sair de lá logo,
mas sem deixar de pensar naqueles momentos menos ignorantes dessa terra em que podia-se subir e ficar absorvido por essa paisagem horas, dias ou meses.
Sei que a idéia pode parecer chata aos nossos olhos ávidos por novidades, e é aí que reside o ponto que quero abordar.
O belo é belo porque tem a capacidade de absorver nossa atenção a ponto de tirá-la de nós mesmos. E esse “nós mesmos” é na verdade a atenção que mantemos sobre as nossas defesas, porque o ego é uma entidade que não existe sem defesa. Ele é a defesa. Ele é o exército.
Quando comecei a ouvir essa história de ego pra lá e pra cá a coisa não entrou na minha cabeça fácil. Demorou a bater, e não foi com “entendimento”, mas com a sensação da alegria injustificada.
O que também pode ser dito como alegria da ((( liberdade ))) e ” liberdade não é uma reação, nem tampouco uma escolha – é pretensão do homem pensar ser livre porque pode escolher. Liberdade é observação pura, sem direção, sem medo de castigo ou recompensa. A liberdade não tem motivo” (krishnamurti)
Para que essa alegria exista – e ela que é o amor – os aparatos de defesa da mente têm
((( necessariamente ))) de estar desligados. Isso é uma condição.
Assim o amor é conectado ao belo porque o belo é aquilo que absorve sua atenção te deixando em estado de contemplação, estupefação, santidade. Risinho bobo no rosto. Desatenção. Paz.
O amor não é o que eu sinto por alguém. O amor é o que “vaza” de mim quando o tal alguém me absorve a ponto de eu me desligar de tudo.
Isso, basta ser milimétricamente mal entendido pra virar dependência, que leva à insegurança, que provoca a reação de posse e desencadeia o ciúme que a “sociedade” errôneamente justifica.
E se você duvida disso, como diria Hakin Bay, pare de me ler para sempre…:)!
texto: fabíola | foto: uma de nós










“O amor não é o que eu sinto por alguém. O amor é o que “vaza” de mim quando o tal alguém me absorve a ponto de eu me desligar de tudo.” >> entendi! gracias irmana
[...] O contemplativo é na verdade um “despensamento” , sobre o qual falei no post Sri-Nagar & ego. O operacional é a razão da mente existir: faz contas, estima distâncias, entende, [...]
[...] foi a própria Fabíola (que vos fala) que começou a escrever descrevendo seus passo-a-passos. Depois veio a opurtunidade de postar (pela segunda vez) um texto genial do OscarF sobre a [...]
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goiastexas
um misto de inconformidade com a jequice e um pouco de admiração pelas qualidades do isolamento