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Umwelt

20 June 2010 No Comment

Sistemas tendem a permanecer. Tendem a durar no tempo e para isso têm que evoluir. Uma condiçõa fundamental para isso é que sejam sensíveis aos seus ambientes, porque as crises que podem comprometer suas permanências vêm do ambiente e da posterior ressonância destas com crises internas aos sistemas. A evolução dotou os sistemas cognitivos de formas elaboradas de sensibilidade: quando o ambiente se perturba, essa perturbação chega ao sistema cognitivo e é por ele percebida, por meio de dispositivos sensíveis às mudanças ou perturbações mais importantes para aquele sistema específico. Essas interfaces dependem, assim, do que o ambiente fornece e do estágio de complexidade em que se encontra o sistema cognitivo. Os humanos desenvolveram uma forma ótima de sensibilidade, a partir da visão. Esta é possível a partir de dispositivos que constituem nosso sistema visual, que são sensíveis à radiação eletromagnética refletida das coisas que compõem o ambiente. Então essa radiação captada é sucessivamente traduzida em códigos sofisticados: uma primeira tradução converte a intensidade dos fótons em sucessão chegando ao olho, por meio de células especializadas chamadas cones e bastonetes, em um código bioquêmico, que por sua vez gera um novo código na forma de um “trem”de pulsos elétricos, que se propagam pelos nervos e chegam a um setor cerebral, o centro visual, onde são de alguma maneira de novo codificados em uma rede neuronal, o que nos dá a sensação e ideia de “ver”.

Outros transdutores são capazes de produzir vários códigos coerentes a partir de sinais diferentes, ou seja, em vez do fluxo de fótons, podemos ter moléculas em suspensão gerando o olfato e a sensação de cheiro; uma avaliação química feita nas papilas linguais gerando o paladar e a sensação de gosto; ondas mecânicas sonoras são percebidas por uma membrana oscilante chamada tímpano que fornece códigos que acarretam a audição e a sensação de som; células especiais que percebem variações de pressão por contato e acabam por gerar o tato, a sensação de textura e possivelmente formas sutis de sensibilidade que envolvem essas formas básicas. O domínio da percepção e todas as suas implicações.

Sistemas vivos cognitivos diversos acabam por ter formas de sensibilidades também diversas em função dos ambientes e suas histórias. Assim, peixes têm uma forma de tato muito elaborada, graças a órgãos sensíveis a pequenas variações de pressão na água, dispostos nas lateriais de seus corpos, que permitem que façam movimentos de profunda coerência quando em cardume, ou ainda, cobras vêem a radiação infravermelha que nossos olhos não percebem; morcegos sobrevivem basicamente emitindo e captando sinais de ultra-som, como radares naturais… A Natureza encontra-se farta desses exemplos de interação com o seu ambiente complexo.

Um biólogo, Jakob von Uexküll, estudou essas formas de interação e imaginou que cada espécie viva sobrevive como que envolvida por uma “bolha” particular, que acompanha aonde for, que é a sua maneira particular de perceber a realidade e adaptar-se à permanência. Essa interface, essa “bolha”, que começa em processos puramente físicos (fótons atingindo células materiais) e termina em processos altamente sofisticados e sígnicos (conceitos, ideias, sistemas de ideias que são teorias), é o chamado Umwelt, palavra que é aproximadamente traduzida como “o mundo à volta”, o “mundo entorno” ou ainda o “mundo particular” (Uexküll, 1992). Alguns autores a traduzem como “o mundo subjetivo”de uma espécie viva. Não concordamos com isso, pois os objetos da subjetividade já são o resultado das codificações e de outros fatores complexos como sentimentos e emoções, quando o conceito de Uexküll implica uma ponte objetiva com a realidade.

Astrônomos são sistemas cognitivos que têm um Umelt predominantemente visual, apoiado em um código de base eletromagnética, com ênfase em uma faixa de frequências chamada “janela do visível”. É a partir dessa forma de filtragem imposta por essa “bolha”específica que eles olham o Universo e tentam entendê-lo e explicá-lo. Mas astrônomos são humanos e representantes de uma espécie viva que atingiu uma notável complexidade, para o bem ou para o mal (por vezes parecendo mais para o mal…). Uma das características dessa complexidade é a capacidade de criar signos em seus sistemas cognitivos a partir daqueles, mais básicos, gerados pela percepção. Conseguimos criar sistemas de signos, ideias, que explicam coisas além de nossa mera percepção. Como resultado disso, percbeemos que nosso Umwelt biológico é limitado e conseguimos criar dispositivos, extra-somatizações, que expandem a ação desse Umwelt. Astrônomos acabaram assim criando telescópios e radiotelescópios, como refinamentos de nossa capacidade visual, vem como detectores de partículas e tentativas de detecção de ondas gravitacionais, que são diversas em comportamento das eletromagnéticas.

Somos capazes, os humanos, de refinar nosso Umwelt. Geofísicos, por exemplo, trabalham como sismógrafos que dilatam a sensibilidade do tato, químicos têm dispositivos que avaliam com precisão elevada a distribuição de moléculas suspensas no ambiente, etc. A ciência tem seu sucesso quando se mostra eficiente em finar o Umwelt da espécie. Mas o que a evolução e a consqquente permanência exigem é que, além desse refinamento, que o Umwelt seja dilatado.

mas essa dilatação, fica para outro capítulo

trecho do livro Ciência: formas de conhecimento – arte e ciência uma visão a partir da complexidade
Jorge Vieira

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